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O estranho crime de nascer em berço de ouro

O canadense Lance Stroll, de apenas 17 anos, lidera a F3 europeia e é o favorito ao lugar de Felipe Massa; porém, pai rico gera desconfianças sobre seu talento

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Por: Marcos Gil

1 Lance Stroll (CAN, Prema Powerteam, Dallara F312 - Mercedes-Benz), FIA Formula 3 European Championship, round 8, Nürburgring (DEU), 9. - 11. September 2016
(Foto: Divulgação/FIA F3)

No fim de semana do Grande Prêmio da Itália, Felipe Massa anunciou que se aposentará da Fórmula 1 ao final da temporada. Com isso, confirmou que pelo menos um dos assentos da Williams para o ano que vem estará vago. Desde então, nomes como Sergio Perez e Pascal Wehrlein, que já eram ligados à vaga, ganharam ainda mais força. Porém, é outro jovem talento que parece despontar como o favorito: Lance Stroll.

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Stroll é canadense e tem apenas 17 anos. Após dominar a Fórmula 4 italiana em 2014, ele chegou à disputadíssima Fórmula 3 europeia no ano passado e, logo de cara, demonstrou seu talento. Terminou o campeonato em quinto, com uma vitória e outros cinco pódios, se colocando na posição de um dos grandes favoritos para 2016. E, neste ano, a expectativa está prestes a se confirmar: foram nove vitórias até o momento, com outros quatro pódios, e uma liderança de 68 pontos sobre o vice-líder Maximilian Gunther faltando apenas duas etapas para o fim da competição.

Ele fez parte da academia de jovens pilotos da Ferrari até o final de 2014, quando migrou para a escuderia de Grove para ser piloto de testes e desenvolvimento. Com o talento que já demonstrou ter e já filiado à equipe, nada mais natural e certo que ver seu nome ligado à vaga de titular no ano que vem, certo? Bem, mais ou menos.

Lance vem sendo alvo da desconfiança de alguns, principalmente no Brasil, por causa de uma coisa: é filho de um bilionário (isso mesmo, BIlionário). Seu pai, Lawrence Stroll, é um magnata do mundo da moda. Filho de um dono de loja de roupas, ele abriu as portas para marcas como Pierre Cardin e Ralph Lauren no Canadá e na Europa e apostou na emergente Tommy Hilfiger, ajudando a transformá-la em uma gigante mundial. Com isso, fez bilhões de dólares e hoje figura em 722º na lista dos mais ricos do mundo da Forbes.

Você certamente está perguntando o que isso tem a ver com automobilismo e as dúvidas sobre Lance, pois então… Em todas as categorias de formação, os pilotos precisam levar patrocínio às suas equipes para que elas possam se sustentar e ajudá-los em seu desenvolvimento; é algo de praxe nessas competições e um dos principais motivos pela escassez de brasileiros no caminho à Fórmula 1. Alguns recebem apoio de empresas, privadas ou estatais. Outros fazem parte do programa de jovens pilotos de alguma equipe da F1, como o da Red Bull, que os bancam. Lance é financiado pelo próprio pai, apaixonado por automobilismo, dono de uma coleção de mais de 20 carros antigos e do circuito Mont-Tremblant, no Canadá.

Como no Brasil não existe a cultura de acompanhar as categorias de formação nem entre os fãs de automobilismo, muitos confundem o que Lawrence faz por seu filho com um fenômeno que assombrou a Fórmula 1 nos últimos anos: os pilotos pagantes. Esses são pilotos que, claramente, não têm talento para chegar à principal categoria do mundo e se aproveitam da frágil situação financeira de equipes médias e pequenas para, literalmente, comprar a sua vaga, tomando o lugar que deveria pertencer a um jovem talentoso. Mas este não é o caso em questão.

Prize giving ceremony, 2 Nick Cassidy (NZL, Prema Powerteam, Dallara F312 - Mercedes-Benz), Adrian Newey (10 times Formula One Constructors' title winner) giving the trophy to 1 Lance Stroll (CAN, Prema Powerteam, Dallara F312 - Mercedes-Benz), 4 Alessio Lorandi (ITA, Carlin, Dallara F312 - Volkswagen), FIA Formula 3 European Championship, round 6, race 1, Zandvoort (NED), 15. - 17. July 2016
(Foto: Divulgação/FIA F3)

Em seu primeiro ano pilotando carros, Lance Stroll foi campeão da Fórmula 4 italiana, antiga Fórmula Abarth, com o recorde de pontos e vitórias – em 2015 foi alcançado em pontos por Ralf Aron, mas ainda é absoluto em vitórias. Como já citado, fez uma forte campanha de estreia na F3 europeia no ano passado e este ano sobra no campeonato. Bom nos treinos classificatórios (atributo que melhorou bastante em 2016) e melhor ainda nas corridas, sempre está entre os primeiros colocados aonde corre. Costuma ter facilidade para realizar ultrapassagens e tranquilidade para manter suas posições. É um dos mais talentosos da nova geração e tem tudo para se tornar um dos pilotos de elite nos próximos anos.

Apesar de todos os seus atributos, muitas pessoas que acompanham automobilismo aqui no Brasil o conheceram através das especulações de que correrá pela Williams no ano que vem, com a ajuda de seu pai. Pronto, prato cheio para ser taxado de piloto pagante e ter todo o seu talento colocado em xeque. Na Europa também vemos questionamentos, mas não quanto à sua capacidade, mas sim sobre o momento ser o ideal para a Fórmula 1. Muitos acreditam que uma temporada na GP2 seria benéfica para o seu amadurecimento e, com isso, eu concordo. Sem um piloto amplamente dominante e tendo a chance de fazer a transição com a sua atual equipe, Prema Powerteam, que também disputa a principal categoria de acesso à F1, esse ano extra seria de extrema valia para que chegasse mais preparado na Williams.

Não se enganem, Lance Stroll é um grande talento. Sabem o Esteban Ocon, prodígio da Mercedes, que está atualmente na Manor e é apontado como um dos principais nomes dos próximos anos, ao lado de Wehrlein e Max Verstappen? Então, Stroll já igualou o número de vitórias do francês em sua campanha campeã de 2014 – quando derrotou ninguém menos que Verstappen – faltando seis corridas a serem disputadas ainda (cada etapa tem três provas). Ou seja, muito provavelmente o canadense será campeão com números melhores do que os obtidos por Ocon.

Então, não confundam as coisas. Ele não está comprando sua vaga na Fórmula 1, o lugar dele é lá e, cedo ou tarde, ele chegará. No máximo, ele está comprando tempo, um ano que deveria disputar a GP2 que pode já estar na F1. Não deixem que a aversão aos pilotos pagantes impeça vocês de apreciar o garoto. Assistam suas corridas. A Fórmula 3 europeia disponibiliza todas gratuitamente e na integra em seu canal do Youtube, basta dar play. Não deixem de admirar e valorizar o seu talento por ser filho de um bilionário. Nascer em berço de ouro não é crime.

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