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Rafael Henzel de partida em Berlim

Fátima Lacerda diretamente de Berlim exclusivo para o EI

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A probabilidade de sair vivo de um desastre de avião é abaixo do nível Ground Zero. Quando esse avião caiu num lugar, quase inacessível no meio de uma floresta, é preciso de um milagre ainda maior para ser sobrevivente, algo que nenhuma ciência e nem vã racionalidade poderá explicar. Era um dia de festa, uma expectativa-über para uma equipe que, em 2009 jogava na Série D, mas que vinha delineando um caminho contagiante, invejável e eletrizante para voos mais altos. Naquele novembro fatídico, a alegria se transformou no maior desastre de avião já visto no âmbito do esporte. E desse, exatamente desses escombros, saia Rafael Henzel e ainda dando instruções para os bombeiros colombianos de como posicionar a maca, para que ele não caísse no precipício. Esse detalhes, Rafael contava em palestras que fazia, também para divulgar o seu livro publicado em 2017: “Viva como se estivesse de partida”. Nessas histórias e testemunhos, ele nunca se deixou seduzir pelo voyeurismo e por uma pueril vaidade do tipo: “Eu sou o cara”.

Rafael era humilde, sem ser submisso, era alegre sem ser espaçoso. Ao vê-lo pela primeira vez em presença física dia 21/03, na noite de abertura do Festival “11mm” em Berlim, ele tinha uma aura de instigante normalidade para quem, há tão pouco tempo, nascera de novo. Com o blazer quadriculado, ele subiu no palco ao mesmo tempo que foi deixado um pouco de lado pela apresentadora da noite, mas o sorriso e a aura gentil estavam ali.

Um Festival e o acaso

O mês de março é tradicional para os amantes do futebol na capital alemã. Quantas vezes eu marquei presença no festival de maior importância mundial. Desta vez, a expectativa era grande ao tomar conhecimento que o filme de estreia seria “Nossa Chape”, dos diretores americanos Jeff e Michael Zimbalist, sobre a equipe que vem mostrando garra, superação e dignidade num setor que é um maiores antros de corrupção e de falcatruas: o Futebol profissional.

Na Chape, futebol é mais do que um jogo de 90 minutos ou seja lá de prorrogação. É uma bandeira balançando o tempo todo na cidade que tem 200.000 habitantes, mas torcedores no mundo inteiro. Rafael Henzel era um embaixador da cidade de Chapecó e de seu amado time.

Poucos dias antes da estreia do 11 mm (21.03) , pesquisando sobre o Embaixador do Verdão do Sul, quem até ali eu só conhecia de nome e que era jornalista e sobrevivente, encontrei duas datas de nascimento.

Na noite de abertura do festival, o cinema estava lotado, sua esposa e seu filho sentados nas primeiras filas do lado direito do cinema. A tradutora alemã, com português emperrado, pecou, várias vezes, ao deixar passar em branco relatos importantes, por exemplo, quando ele falava de destino. Fiquei irritada por ela não ter traduzido uma fala com tanta empatia e profundidade, e que daria ao público que não domina a língua portuguesa a chance de perceber um Rafael mais profundo. A apresentadora deixou Rafael um pouco de lado, dando mais atenção para os diretores-irmãos e para o co-diretor, um colombiano. “Como eles conseguiram chegar nas pessoas de Chapecó para fazer o filme”, conquistar sua confiança.

Assim que acabou o filme e a conversa breve com o público na qual Rafael assegurou: “Só viajo com a minha família”, fui até a primeira fila e me apresentei, dizendo que estava ali cobrindo para o Esporte Interativo. Ele foi solícito e fomos lá pro andar de cima em frente à parede com o logotipo do festival. De repente, o filho dele (14) aparece na área. Um garoto muito atento a tudo ao redor, um óculos super cool. O fotógrafo alemão ao meu lado, Frank W. Toebs, fotografou os dois. Depois eu fui saber que Frank tem um projeto fotográfico em que fotografa Pais e Filhos especialmente unidos pelo futebol. Um dia depois, Frank explicou a essência do seu projeto, dizendo que perdeu seu filho ainda bebê e até hoje se pergunta quantas aventuras pelos estádios do mundo e em jogos eles poderiam ter tido juntos.

A morte de Rafael teria tido muito menos impacto em mim, se eu não o tivesse encontrado e entrevistado poucos dias antes dela. Ainda deitada na cama na manhã de quarta-feira, olhando a timeline do Facebook, deparei com o perfil “Lapa-Rio”, que não tem bulhufas a ver com futebol. Lá estava a foto e a notícia. A minha retina congelou. Eu precisei de 5 minutos para entender, depois de pensar na possibilidade de Fake News, já que a verdade, como a gente outrora conhecia, não existe mais. Corri para o computador, mas as notícias ainda eram pouquíssimas.

Vida, morte, chances

É impossível entrevistar alguém que sobreviveu a uma tragédia de avião, sem falar de morte, de segunda chance e de uma nova vida, de um “segundo tempo”. Rafael falou sobre esses temas com incrível honestidade na voz em forma e em conteúdo.

A entrevista você confere aqui:

Ao ser perguntado sobre o desafio de uma viagem transatlântica de avião, ele brincou: “Meus amigos dizem que, quando eu morrer, não será de desastre de avião”. Ele louvou sua presença no festival para divulgar Chapecó, “uma cidade tão sofrida”, e também falou de sua paixão por estádios de futebol. Alegre e não escondendo orgulho, ele falou da visita do Estádio do Athletic Bilbao na cidade que havia visitado dias antes para também apresentar o “Nossa Chape” no festival de cinema de lá. Anunciou querer conferir o Estádio Olímpico de Berlim, aquele que sediou os Jogos Olímpicos em 1936. Em sua conta no Facebook, ele vai até à placa de bronze que eterniza os vencedores, explica a “Irritação” de Hitler em ter que dar 4 medalhas de ouro ao afrodescendente Jesse Owens. Essas fotos foram veiculadas enquanto ele fazia os comentários, diretamente de Berlim para seu programa na Rádio Oeste. O cara era um Workaholic pela boa causa.

Perplexidade

A notícia comprometeu o meu dia inteiro. Muitas lágrimas caíram. Em todos os lugares e sem pedir licença. Talvez a mais inusitada delas foi na esteira da academia, talvez porque nesse momento o pulso e coração se fazem presentes.

Chorar a morte de Rafael é mais do que ter piedade por um cara tao bacana que foi arrancado da segunda vida depois de 849 dias. A morte dele fala sobre todas e todos que amam o futebol, esse esporte que exige 30 corações para segurar as ondas magras e gordas do time que a gente ama. Haja coração! A morte de Rafael levam à tona questões como o amor incontido, a da superação, do otimismo de seguir em frente mesmo quando você já está disputando os pênaltis e o goleiro está arriado. A Chapecoense do Rafael não é a equipe do Real Madrid quando, numa disputa de Final da LC, contava com um Super Homem de nervos de aço para disputar o último pênalti e fazer a rede tremer. A Chapecoense é uma roda gigante de emoções: A classificação para a Sul americana. Em 2018 para a Libertadores de uma cidade de 200.00 habitantes e que exprime muito bem os versos de Renato Russo, quando ele diz: “E quando acho que estou quase chegando, tenho que dobrar mais uma esquina”. A morte de seu Embaixador, seu jogador número 12 mais famoso é um baque para o Verdão, mas deixa uma lacuna imensa no jornalismo esportivo e esfrega na nossa cara, da forma mais brutal possível que ele tinha razão e que é preciso viver como se estivesse de partida. E que o baiano Gil também tem razão quando diz que “tudo pode estar por um segundo”. Que destino o desse homem! É preciso mesmo procurar respostas porque aquele lá em cima deu a Rafael uma segunda vida, para tirá-la somente 849. Seria para ele ver o Estádio de Bilbao, o Estádio Olímpico em Berlim? Ou para ficar mais tempo com o filho?

E como irá ficar a cabeça desse menino que agora perdeu o pai, em definitivo? Já não basta o filho do ex-goleiro Danilo que sonha com a volta do pai do “céu para jogar futebol” com ele? E por que tanta gente boa tem que ir embora nesses momentos terríveis em que vivemos?

Quantas morte mais a Chape terá que chorar?Quantas vezes o Follmann, o Neto e o Alan Ruschel vão ter que chorar e ter a fina casca de suas feriadas arrancadas mais uma vez e começar o trabalho de luto do zero? Rafael havia prometido narrar a volta de neto. Havia prometido narrar o jogo contra o Criciúma. E agora?

Exatamente há uma semana atrás, Rafael, sua esposa e filho curtiam uma semana memorável, com viagens a Bilbao e à Berlim. Chegam em Chapecó, e 3 dias depois acabou tudo. O Estadio do Chape nunca mais será o mesmo.

Me lembro que vi no filme documentário La Voz del Barça’, que Manuel Vich, o locutor do estádio do Barcelona só faltou a 3 jogos em toda a sua carreira de 59 anos: No dia do casamento da filha e quando teve que fazer duas operações.

Na entrevista, o confrontei sobre a declaração que ele havia feito de que os estádios são lugares de sua paixão. Como uma tricolor que já esteve no estádio do Legia Varsóvia, sem público e ao ver a arquibancada com as cores do Fluminense, ao mesmo tempo que ouvia a história do clube, as lágrimas cairão, e caíram mesmo de incontida emoção.

Vai demorar muito para a torcida da Chape conseguir se acostumar com a ausênca (também da voz) de Rafael Henzel. O coração não aguentou a prorrogação dos 45 minutos. Nem disputa de pênaltis, teve. Krak!

Se foi um grande jornalista, um torcedor apaixonado, um pai grudado no filho, um cara simpático e o melhor embaixador que a Chape poderia ter em toda a sua história. E agora Chape?

Um aperto de mão

Ao fim da entrevista feita em Berlim, eu agradeci, apertei a mão dele e ratifiquei que o artigo e a entrevista estariam disponíveis no site do EI: “Vou procurar lá”.

Segunda-feira (25), juntamente com Antonio Leal, do Festival CineFoot e com os diretores Douglas Lima e Jefferson Rodrigues de “As Copas por um clique” nos alegrávamos com a premiação do Júri para “Nossa Chape” e pelo decorrer instigante e eletrizante do festival. Os organizadores sorriam com o semblante de dever cumprido. Os diretores voltariam para o Rio na madrugada, o Antonio iria para a República Checa assistir a Seleção e eu iria pegar a “Vilma”, minha bicicleta, e voltar pra cara na noite berlinense. Tudo parecia estar no seu lugar e em harmonioso andamento. Na terça-feira, tudo mudou. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanha. Porque se você parar, na verdade não há.” E como o Renato tem razão!

Na quinta-feira (28) “Nossa Chape” (Unser Team) estreou nos cinemas alemães pela distribuidora Weltkino, o filme que tem Rafael Henzel como protagonista que documenta a trajetória sofrida, os tombos e atropelos e destinos do Verdão do Sul, seus jogadores e torcedores. O filme terá mais do que uma tentativa de catalogar as tragédias, seus desdobramentos e o levantar para mais uma partida. Terá também o desdobramento da lacuna deixada por Rafael Henzel.

Que ironia!