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Copa da Alemanha entre Bayern e RB Leipzig: uma final que ninguém quer ver

Fátima Lacerda diretamente de Berlim exclusivo para o EI

O prestigioso torneio da taça da Federação Alemã de Futebol, a DFB-Pokal tem no seu DNA, o quesito tradição como cartão-de-visitas.

Em 1978 e 79, o Fortuna Düsseldorf foi campeão. Em 1989, o Eintracht Frankfurt. Durante muito tempo, o time de Frankfurt viveu na penúria. De campeonato em campeonato, vinha amargando entre jogos de repescagens para conseguir permanecer na primeira divisão. O Fortuna ficou escondido na segunda durante muitos e muitos anos até retornar no fim da temporada 2017/18.

A Taça da Alemanha tem uma dinâmica totalmente diferente da Bundesliga. Grupos da primeira disputam partidas com grupos da segunda e terceira divisão. Só o fator motivação para as equipes menores, como a do FC Heidenheim, por exemplo, em ter o Bayern em seu “estádio caseiro”, não tem preço e gera bem-vindos desdobramentos, como visibilidade, injeção de motivação para os mirins e aspirantes do juvenil, e um afago de vaidade na diretoria de clubes menores.

A dinâmica é diferente, o grau de prestígio também. Enquanto no Campeonato Alemão de Futebol as hierarquias são fatores determinantes e amedrontadores, no torneio pela Copa da Alemanha, já pelo seu DNA de cunho democrático, não há hierarquias. Tudo é possível e a longa história do torneio já mostrou isso inúmeras vezes.

Na última final, em maio de 2018, entre Eintracht Frankfurt X Bayern, o Eintracht, contrariando todas as possibilidades e previsões mais céticas, arrancou a taça da mão dos bávaros, que acharam que era só chegar em Berlim e pegar a taça e ‘dar um rolé’, mas o atacante croata Ante Rebic, o meio-campista Mijat Gaćinović e Kevin-Prince Boateng tinham outros planos. O Frankfurt protagonizou a Final mais ‘hitchkockiana’ dos últimos ano com o placar final de 3 X 1. O Frankfurt era coroado o melhor time da Alemanha. De quebra, a ironia de ter o técnico Kovac, que na temporada seguinte havia assinado com o arquirrival Bayern. Agora, já do outro lado da arquibancada, Kovac precisa se salvar da degola, vencendo o RB Leipzig na Final. A batata dele está assando.

Efeito dominó

Depois da conquista do troféu contra o Bayern, recordista com 18 vitórias e 22 participações na final em Berlim, o SGE ganhou uma moral e disposição que se espelhou numa fulminante performance na Europa League, incluindo uma torcida obcecada, acompanhando o time por onde ele fosse (Milão, Lisboa, Londres). Nem mesmo o novo talento e a nova esperança do futebol europeu, João Félix, do Benfica, conseguiu frear a garra do time mais apaixonante da Alemanha.

A ascensão do Frankfurt na temporada atual foi um desdobramento da conquista da Copa da Alemanha, vencendo o Bayern. A dinâmica não parou. O Underdog não “somente” tirou a taça das mãos dos bávaros; eles fizeram o jogo de suas vidas que resultou num filme “A Volta da Pokal” (Die Rückkehr des Pokals).

Velha rivalidade

Os finalistas das últimas edições da DFB-Pokal foram eliminados ao longo do caminho: Borussia Dortmund (2015, 2016 e 2017) pelo Werder Bremen, um time que renasceu nessa temporada e tem um Zorro, um Joker, o peruano Claudio Pizarro, de 40 anos, que foi tirado do ostracismo da terceira divisão para voltar para seu clube de coração. Também o Eintracht Frankfurt, foi eliminado cedo demais.

Na partida contra o Bayern na semifinal contra o Werder Bremen da DFB-Pokal, por um triz, Pizarro não passava do status de ídolo para imortal ao jogar a bola para o gol em chute com velocidade bala no último minuto da prorrogação. A bola passou raspando. Depois que o juiz deu o pênalti errôneo para o clube bávaro, sem mesmo conferir o VAR, o jogo tomou um outro rumo. Robert Lewandowski bateu, viu e venceu. O sonho dos torcedores por ‘Vale a Pena Ver de Novo’ da velha rivalidade foi por água abaixo.

São tantas coisinhas miúdas…

Vários aspectos, bem fora do quesito desempenho no campo, trazem para Berlim no dia 25 de maio dois finalistas que torcedor apaixonado nenhum quer ver.

O RB Leipzig foi fundado em 2009 e não possui nenhuma tradição, nem na Bundesliga e nem mesmo um traço de relevância na longa história da disputa pela Pokal. Além disso, carrega a mancha e é motivos de chacota por ter como principal patrocinador o Red Bull. Já com o Bayern são outros quinhentos. A batata do treinador Niko Kovac está assando. O Bayern fez uma temporada de ida e de volta muito aquém de seus objetivos de galgar voos altos. Especialmente a derrota para o Liverpool na Liga dos Campeões, que dizimou os planos do Bayern de chegar pelo menos na semifinal, é ferida ainda aberta no coração bávaro. Nas redes sociais, a ferida arde com a hashtag “Fora Kovac”, e o Bayern paga um preço alto por não ter tido coragem em fazer a “transição de gerações” na última temporada. Insistir na permanência dos veteranos Ribéry e Robben foi um grande erro da diretoria, que atrapalhou os planos do croata. Teve o problema do brasileiro Rafinha, que foi às redes sociais reclamar por não ser escalado. Lisa Müller, esposa de Thomas, reclamou, via Twitter, que o técnico deixou o maridão no banco de reserva até 15 minutos antes do fim do jogo. A temporada de ida do Bayern foi uma catástrofe. Na de volta, a equipe conseguiu dar um reset, como declarou Kovac, mas muitos atropelos, erros e coletivas de imprensa reclamando das vozes críticas dos jornalistas esportivos extrapolaram a paciência dos torcedores. Todos esses equívocos, teimosias e ineficiências somam, na reta final da temporada, como uma sombra sobre as duas partidas decisivas e eminentes.

Analistas esportivos acham que, nem mesmo se o treinador croata conseguir a vitória dupla (Bundesliga e a da Copa da Alemanha), conseguirá se manter no cargo. Ouvidos mais astutos veem, em declarações à imprensa, uma discordância sobre a permanência ou não, no andar lá de cima, entre os chefões Rummenige (CEO) e Hoeneß (presidente). Kovac precisará ter nervos de ferro para segurar a pressão e, da perspectiva de hoje, sem nenhuma garantia se seu contrato será mantido.

Marketing da Federação

No evento de promoção para a Final, que acontecerá dia 25 de maio no Estádio Olímpico em Berlim, Charlie Körbel, capitão do Frankfurt em 1989, quando o time levou a taça, ao entregá-la ao atual presidente interino da Federação, Rainer Rauball, para que seja entregue à equipe vencedora, o ídolo do Frankfurt, mandou o recado: “Ano que vem eu volto para buscá-la!”.

O eterno camisa 9: presença certeira

No evento do último dia 10 de maio, na primeira fileira ao lado de Javi Martínez, estava o eterno camisa 9 Giovane Élber, que atuou na época em que o time era conduzido pelo suíço e professor de matemática, Ottmar Hitzfeld. O brasileiro, nascido em Londrina (PR), é vencedor de quatro Copas da Alemanha, sendo a primeira em 14 de Junho de 1997, seu último dia de jogo pelo Stuttgart, e três pelo Bayern (1998, 2000 e 2003). Foi campeão da Bundesliga quatro vezes e duas vezes venceu o Mundial de Clubes (2001 e 2002). Na temporada 2002/03, foi o artilheiro do campeonato com 21 gols.  Depois de terminar sua carreira no Cruzeiro, em 2006, Giovane virou “olheiro” do Bayern para depois ser promovido a embaixador da marca, em viagens ao redor do mundo. Como detentor do maior número de títulos da Pokal, nada mais coerente que a presença do embaixador.

No evento realizado no prédio da antiga prefeitura de Berlim, Élber estava sentado na primeira fila. Ao seu lado, Javi Martínez, atualmente lesionado e que comentou no microfone do moderador Ralf Köttker, que tinha feito fisioterapia de manhã cedo e, na sequência, teria ido direto pro aeroporto para embarcar para Berlim. Com essa declaração, somou pontos com a imprensa esportiva e com seus patrões, os cartolas da Säbener Str., que já não se entendem como antigamente.

Giovane, sempre em retórica exata e bem preparada entre a simpatia brasileira e a seriedade que os alemães prezam e dele esperam, vendeu seu peixe muito bem e, como sempre, foi solícito para falar em exclusivo para a tela do EI, mesmo cercado de uma massas de jornalistas e fotógrafos alemães.

Javi Martínez, frente ao meu pedido em dar um recado para os torcedores do EI em sua língua mãe, e aficionados pelo Bayern, ele negou, alegando ser “muito tímido”. Pois é.

A Final da Copa da Alemanha em 2019 terá um cenário diferente dos últimos anos. Um Underdog, sem nenhuma tradição, ocupará uma parte da cidade onde nos últimos anos foi da torcida do Borussia Dortmund, enquanto a torcida bávara marcará presença no centro-leste de Berlim, Alexanderplatz.